Sexta feira, 4 de Setembro
9 de Outubro, mais ou menos 8 da noite. Chego na casa da Ruiva e ela comenta que combinou com a cunhada de deixar o Pingo na casa dela na manhã seguinte, pra ele brincar com os cachorros dela. É uma casa grande, na Pampulha, ele teria espaço infinito para correr e gastar as unhas. Como eu iria trabalhar e ela tinha combinado de estudar na casa de uma amiga, achei que seria uma boa. Sabia que ele ia voltar com pulgas e carrapatos, mas pelo menos ia gastar energia. Pulga eu catava no domingo de manhã, junto com o banho.
Acordamos cedo no sábado, levamos o pingo na casa da mulher e, nos poucos minutos que fiquei lá, os cães arranharam meu carro. Mas vi que ele ia se divertir, porque começou a correr como um louco. Deixamos ele lá e fomos para os nossos afazeres. Deixei a Ruiva na casa da amiga e fui para o escritório.
Não deu nem meia hora que eu estava trabalhando e meu telefone tocou. Era a Ruiva. Ela NUNCA me liga no trabalho, então sabia que era problema. Achei que era alguma coisa de saúde, mas ela simplesmente disse: "vamos ter que voltar para a Pampulha. O pingo fugiu.". Não perguntei nada. Só falei: "Tô saindo. Te pego aí".
Catei meu notebook, botei na mochila e saí correndo do escritório. Peguei a Ruiva e fomos em direção à Pampulha. Foram mais ou menos 20 minutos até chegar lá, mas não falamos nem uma palavra. Ela segurava a minha mão, forte. Claramente queria chorar, mas não saiu nenhuma lágrima.
Chegamos na casa da cunhada da Ruiva e ela contou a hitória: deixaram o Pingo brincando e depois de um tempo gritaram o nome dele e ele não apareceu. Começaram a procurar no terreno e não acharam. Aí foram para a rua.
Segundo elas procuraram em volta e perguntaram pra um vendedor de água de coco no outro lado da rua perto do Zoologico. O cara falou que viu o cachorro, que estava tentando atravessar de volta, mas não conseguia por causa dos carros. Ai viu alguém tentando pegar ele, mas que não conseguiram. Depois veio uma outra pessoa e conseguiu. E o puto não fez nada.
Voltamos no cara e ele mudou um pouco a historia. Falou que um cara tinha tentado, não conseguiu e que depois o cachorro subiu uma rua. deve ter sido pra gente ir pra longe dele e não dar outro esporro, como fez a cunhada da Ruiva.
Ficamos rodando a Pampulha inteira, gritando "Pingo! Pingo!". E nada. Desistimos e fomos para casa publicar a foto dele em tudo quanto é rede social. O desespero foi tão grande, que até na página da Luisa Mel eu postei. Estávamos acompanhando todas as páginas, mas não tivemos resposta. resolvemos dar mais uma volta na região do Zoo, pois estava chovendo e a Ruiva com medo ele estar na chuva. Nada. Exaustos, voltamos pra casa e fomos dormir.
No dia seguinte pela manhã, vimos um comentário colocado próximo da meia noite em uma das páginas falando que tinham visto ele perto do Mineirão. Achamos muito estranho pois do zoológico até o moneirão é longe pra caralho e o bicho não conseguiria ir sozinho. Criamos uma teoria que quem pegou não aguentou a energia dele e largou na rua de volta.
Era dia de jogo as 11 da manhã e a região estava lotada. Não iríamos achar ele nunca ali. Mas começamos a mostrar a foto dele em tudo quanto é lugar e começaram a falar: "eu vi ele ontem. Desceu a rua" (Dias Bicalho). Bateu uma esperança. Fomos perguntando, perguntando e todo mundo confirmando que tinha visto. Rodamos a região toda, mas não o vimos.
Voltamos para casa, fizemos cartaz de procura-se e voltamos para lá. O jogo tinha acabado, então a região estava mais tranquila. Colamos 258389745 cartazes, para tudo quanto é lado, em todas as direções. Em um deles, uma mulher que estava passando na rua, sem que nós perguntássemos nada, falou "eu vi esse cachorro ontem. Ele desceu naquela direção". O sentimento de esperança aumentou novamente. Mas depois de muita procura, mais uma vez sem sucesso e com insolação, voltamos para casa para almoçar (já era 6 da tarde) e olhar as redes sociais (além de postar e repostar a foto do Pingão).
Segunda cedo (era feriado), resolvemos ampliar a região de busca. Peguei o Google Maps e falei: "se ele desceu a Dias Bicalho, pode ter ido para o lado do aeroporto". E lá fomos nós novamente rodar colando cartaz e gritando "Pingo". Conheci lugares que nunca imaginei. Até descobri que existe cemitério israelita "perto" do aeroporto.
Mais uma vez, insolação, cansaço e o fio de esperança de encontrar o peludo foi embora. Já estávamos aceitando que nunca mais veríamos o bichinho. Enquanto a Ruiva tomava banho e eu catava os brinquedos dele pela casa, meu telefone apitou. Era um email de um colega de faculdade, encaminhando um email que tinha recebido. Só dizia assim: "Foi você que perdeu um cachorro?".
Fui lendo o histórico e era um email encaminhado para a CãoViver, mais ou menos assim:
"Achei esse cachorrinho na rua, com duas coleiras, uma vermelha e uma azul de remédio. Não sabia como procurar e parece ser de raça então com medo de alguém mal intencionado, estou enviando esse email para vocês. Se não achar o dono, vou ficar com ele". E estava essa foto anexada:

Durante alguns segundos o fiquei pensando e falando comigo mesmo: "É o pingo. Acharam o pingo.". Repeti umas 3 vezes, até que gritei para a Ruiva: "Acharam o Pingo! Acharam o Pingo!".
Liguei para a menina que tinha mandado o email, falei que tinha recebido um email com a foto do meu cachorro, que ela tinha achado meu cachorro. Contei a história toda, ela viu que era verdade, falou que pegou ele com medo de alguém mal intencionado pegar e blablabla. Eu sõ pensava: "foda-se. Eu só quero meu cachorro". Peguei o endereço dela e fui buscar o Pingo.
A mulher morava longe para cacete e levei uma eternidade para chegar lá. Pelo menos conheci mais um ponto da cidade (e a Toca da Raposa 2). Cheguei lá, toquei a campainha e ele começou a latir. Ela chegou com ele no colo e, quando ele nos viu, deu um pulo do colo dela, batendo no nariz da menina. Eu catei o cachorro e fiz carinho, quando olhei de volta pra ela, vi o nariz jorrando sangue. O cachorro quebrou o nariz dela.
Entramos para ela fazer o nariz parar de sangrar (o que levou um tempo) e a Ruiva ficou conversando com ela, contando a história toda da saga. E descobrimos que, em momento nenhum, ele passou pela Dias Bicalho (apesar de todo mundo ter visto). Esteve o tempo todo na casa dela. Agradecemos, pagamos pela comida que ela comprou (a preço de ouro! 2 kg por 60 reais. Mas foda-se o Pingo estava bem), e voltamos pra casa.
Quando chegamos, começamos a repostar em todos os sites e redes sociais que havíamos encontrado o Pingo. E numa dessas redes acabamos vendo uma foto de um cão IDÊNTICO ao Pingo, que havia sumido NO MESMO DIA, mas na região da Dias Bicalho. Considerando que nunca ligaram para a gente (o cachorro era realmente igual), acho que ele nunca mais foi visto. Alguém deve ter catado ele.
No dia seguinte, encomendamos um tag de identificação pro Pingão, que pode até sumir novamente, mas estará identificado. E certamente nunca mais vai passear na casa da cunhada da Ruiva.
E o feriadão, que era para descansar, foi estressante para caralho. E desde então, não tive mais folga (vou contando aos poucos, na medida que der. Mas não esperem atualizações frequentes, tá foda).