2 de jan. de 2020

Reveillon diferente

Como a gente tinha acabado de voltar do Brasil e gastamos uma fortuna em passagens, tinha combinado com a Ruiva de que esse ano a gente ia passar o ano novo em casa. As festas estavam muito caras e ninguém que a gente conhecia tinha convidado a gente pra fazer nada.... até dia 31 às 2:30 da tarde. Mais ou menos nesse horário uns brasileiros colegas de "colégio" da Ruiva perguntaram o que a gente ia fazer e se a gente queria ir pro mesmo lugar que eles.

(parêntesis) A história desse povo é meio diferente: são duas irmãs enfermeiras que casaram com dois engenheiros (que pelo que eu entendi eram amigos) e por algum motivo resolveram mudar pra cá. Os 4 tem entre 25 e 30 anos. As mulheres conseguiram visto de trabalho (aparentemente tá faltando enfermeiro aqui) e convenceram os maridos a vir. Detalhe: os homens não falam inglês direito, então tão fazendo aula de inglês pra se preparar e daqui um tempo procurar trabalho. Nesse meio tempo tão todos morando no mesmo apartamento para economizar grana. (fim do parêntesis)

A tal festa começava as 6 da tarde, mas como as mulheres estava dando plantão, os 4 só chegariam na festa por volta das 9. Como a Ruiva não conhecia mais ninguém, achamos prudente chegar mais ou menos junto com eles.

Na minha cabeça, ia ser uma festa cheia de gente, começando a beber 6 da tarde, então na hora que a gente chegasse ia estar todo mundo bêbado e ninguém notaria dois desconhecidos. Topei ir, já que a Ruiva tava doida pra não passar Ano Novo em casa.

A festa era naquele esquema “leve o que for beber e comer”, então passamos no supermercado e compramos uns belisques. Levei umas 4 cervejas que tinha na geladeira, só pra falar que tinha bebido alguma coisa, e fomos pro lugar.

Aqui é o inverso de Manaus: pra compensar as temperaturas frias do lado de fora nego mete aquecedor no 25, e normalmente nessa temperatura eu já estou desconfortável com o calor (em Manaus botam o ar condicionado no 15), então resolvi ir de bermuda mesmo. Afinal, já teria mais de 3 horas de festa, ninguém ia perceber.

Chegamos no endereço que passaram pra gente e de cara achei estranho: não tinha quase nenhum carro na rua (2 carros na entrada da garagem, como toda casa, e um na rua) e nada de barulho. As luzes apagadas. “Será que tamo no lugar certo?”, perguntei. A Ruiva ligou pra um dos caras e sim, estávamos no lugar certo.

Entramos na casa e tinha 5 adultos americanos, uma criança americana e os 4 brasileiros amigos da Ruiva. Metade deles estava sentado em frente a TV, jogando Mario kart. A outra metade sentada à mesa, jogando algum jogo de cartas parecido com Magic. Nem música ambiente tinha, pra dar aquela animada.

Eu entreguei o que eu tinha levado pra dona da casa e ela perguntou o que a gente queria beber: chocolate quente, suco e café DESCAFEINADO. Não, não tinha ninguém bebendo. Nem café de verdade tinha (o que eu não tomo, mas fiquei assustado mesmo assim).

Eu não sabia o que fazer com a cerveja. Sim, eram só 4 latinhas, mas como não tinha ninguém bebendo, não sabia se não podia beber (tem gente que não permite álcool em casa) ou se eram só pessoas conscientes que não queriam dirigir depois de beber. Mas como não tinha nem café de verdade, chuto que era a primeira opção. Fato é que fiquei no 7up que levei pra Ruiva (que por sorte também é sem cafeína).

Alguns minutos depois a galera do Mario kart me chamou pra jogar e, passada uma hora resolveram mudar para Catan (aliás, você já jogou Catan? Eu joguei pela primeira vez na terça e, cara, que jogo legal! Recomendo!).

Poucos minutos antes da virada, a dona da casa abre um suco de uva com bolhas (o que praticamente me convence que realmente não pode álcool na casa), bota 2 dedos em cada copo e chama todo mundo pra um brinde. Meia noite, todo mundo fala “Feliz ano novo!”, brinda, uns se abraçam e.... é isso aí.

Um casal de americanos com a criança (que devia ter seus 10 anos ou mais) vai embora poucos minutos depois da virada. Os que ficaram ainda jogaram um jogo interativo por mais uns 40 minutos. Resultado: 1 da manhã e eu já estava em casa, de pijama, tomando uma cerveja pra comemorar o ano novo.

Ah, alguns detalhes que esqueci de falar:

- Na casa não pode entrar de sapato (o que é bem comum aqui) e eles ofereceram pantufas;
- O dono da casa estava claramente de pijama. Era uma calça de moletom cinza furada, uma blusa branca quase transparente e um casaco de moletom com gorro;
- A dona da casa estava com uma blusa mais arrumadinha, mas a calça certamente era de pijama também;
- Os convidados americanos também estavam bem à vontade. Nada de roupa arrumada como nas festas brasileiras (o que me deixou até mais tranquilo de ter ido de bermuda);
- Em Albuquerque (ou talvez seja até no Novo México todo) não pode soltar fogos de artifício. Foi o ano novo mais silencioso da história;
- A dona da casa DEVOLVEU tudo o que não foi consumido, entregando para quem levou (sim, levei minhas cervejas de volta pra casa)

30 de dez. de 2019

Retrospectiva 2019

Sim, queridos leitores, mais um ano se passou. E mais um ano praticamente sem posts neste humilde blog que está respirando com ajuda de aparelhos. Como não teve post, não esperem uma retrospectiva detalhada, apesar de ter sido um ano com muitas mudanças.

O ano começou bem agitado. Em saiu meu visto de trabalho para os EUA e começou a correria. A história completa resumida você vê aqui.

Lembra que eu falei que meu cachorro veio junto comigo pros EUA? Pois é. Por conta dele aluguei uma casa com quintal gigante, com grama pra caralho. Isso me trouxe 2 problemas que eu nunca tive na vida: cortar grama (o que toma 3 horas a cada 15 dias da minha vida) e uma conta de água absurda (dá pra imaginar que água no deserto não é das coisas mais baratas, né?). Ah, o pior: o cachorro só vai pro quintal quando alguém vai com ele. Ou seja: passa 95% do tempo dentro de casa....

Mudança feita, a adaptação foi até rápida. O pau tá comendo no projeto, mas por incrível que pareça o cronograma foi seguido à risca, com coisa ADIANTADA (pelo menos até o começo de Dezembro). Nunca na história desse país isso tinha acontecido. E o cliente é uma mãe. Melhor cliente da história (pelo menos até dezembro). Isso facilitou muito a minha adaptação aqui (apesar de estar trabalhando pra caraio). Nem mesmo os sintomas da altitude (1.600 metros) e do ar seco (peguei dias de 3.5% de umidade do ar) duraram muito. Um pouco de dor de cabeça e nariz sangrando nas primeiras semanas, depois ficou de boa.

A Ruiva deu uma sofrida maior. Ela veio com inglês “the book is on the table”, sem dirigir. Arrumamos umas aulas de inglês pra ela na faculdade e comprei uma bicicleta pra ela ir pra aula (é relativamente perto). Tava indo de boa até que chegou o verão. Aí......

Tenho que ser honesto: eu imaginei que o verão aqui ia ser de querer se matar. Pensei que ia passar dos 50 todo dia, ardendo no fogo do inferno. A verdade é que calor de deserto é uma das melhores formas de calor (se é que existe alguma forma boa de calor). O calor seco é MUITO bom. Primeiro porque você não sua. Sério, fiquei uns 7 meses sem suar. Óbvio que se você faz exercício físico você sua, mas normalmente é super tranquilo. E se você for para uma sombra, a temperatura cai drasticamente. Não, não fica frio, mas melhora muito. E as temperaturas aqui nem foram tão altas: poucos dias passou de 40. Mas o pessoal daqui disse que foi um ano atípico, com muita chuva e temperaturas mais brandas. Manaus era muito pior do que aqui. MUITO.

O problema daqui é o sol. Ele é escaldante. E não tem núvem no ceu. 5 minutos no sol e você já sente a pele repuxando. Se ficar mais uns 5 minutos ela fica parecendo solo do nordeste, marrom, seco e todo rachado. Haja protetor solar. E Albuquerque é bem alta, então o sol é “mais forte”. Mas ainda assim, muito melhor que Manaus.

O céu é assim quase o tempo todo. E de quebra você vê a casa do Walter White

E bem no auge do verão a Véia resolveu me visitar. Por um lado, foi bom, porque conheci algumas cidades aqui perto (turismo não é um dos pontos fortes do Novo México, a menos que você goste de natureza). Por outro foi foda porque ela ficou 3 semanas aqui e não tinha o que ela fazer. Ainda mais no sol e calor. Mas no fim deu tudo certo.

Santa Fe

A Rota 66 cruza o estado inteiro (inclusive Albuquerque)

Rota 66 em Gallup

Praça principal de Taos

Cemitério indígena com o Taos Pueblo no fundo

Cada estado tem o Gran Canion que merece. Esse é perto de Taos (não, não é o Gran Canion de verdade. Esse é o Rio Grande)

A ponte com vão central mais alto dos EUA

Em Outubro teve uma das coisas mais bonitas que já vi na vida: o festival internacional de balonismo de Albuquerque. São mais ou menos 600 balões que levantam vôo em menos de duas horas. É MUITO foda. O difícil é acordar de madrugada pra ir pro lugar do festival. O busão SAI 4:40. E a temperatura já estava abaixo dos 10 graus nessa época, então divertido não foi. E como Murphy é meu amigo, no dia que eu resolvi ir teve nevoeiro e nenhum balão saiu do chão. Resultado: acordei de madrugada no frio dois dias seguidos (e paguei ingressos em dobro, obvio). Mas valeu a pena. É muito bacana, ainda mais com o céu azul sem nuvens do deserto.

De madrugada fica assim

E depois que libera o voo fica assim (ó o Cristo Redentor ali no canto esquerdo)

Ainda em Outubro fui convidado para uma festa de halloween. Eu achei que era só a criançada que ficava empolgada, mas os adultos também levam bem a sério. Todo mundo gasta uma grana com fantasia, decoração, doces (menos eu, óbvio). E tenho que falar a verdade: a história de doces ou travessuras é um saco. A cada 5 minutos alguém toca sua campainha, você atende, elogia as fantasias, dá doces e fecha a porta. E meu cachorro não para de latir quando a campainha toca, então foram umas 3 horas de latidos...... A festa, pelo menos, foi divertida. Até participei do campeonato de pong beer (perdi a final).

Minha fantasia para receber a pirralhada (doces no fundo)

A mesa de beer pong

Em meados de Novembro a Ruiva foi para o Brasil. Eu ainda trabalharia alguns meses antes de ir também, o que me rendeu um convite para jantar de ação de graças na casa de um colega de trabalho. Jantar as 2 da tarde, mas jantar. Eu levei pão de queijo e brigadeiro e nunca vi gringo tão feliz. Mas a parte divertida desse dia foi dirigir na neve. Começou a nevar no dia anterior e caiu quase 18 horas de neve. Coisa que nunca tinha acontecido nessa época do ano. O cachorro ficou felizão rolando na neve. Eu não fiquei tanto, pois teria que atravessar a cidade e, convenhamos, dirigir com um palmo de neve no chão não é algo que brasileiro está acostumado.... Mas no final deu certo, pois nas grandes ruas e avenidas passa trator limpando a neve. Sair de casa e na minha rua foi outra história. Foram uns 30 metros de rally gelado. A neve levou uma semana pra derreter, o que fez meu quintal virar um lamaçal. Super divertido.

Quase num tinha neve

Chegou Dezembro e foi a minha vez de ir para o Brasil. Foram duas semanas em solo tupiniquim. No primeiro final de semana, meu aniversário. No segundo final de semana, minha festa de casamento. Sim, eu casei. Tecnicamente eu já sou casado desde ano passado, mas a festa foi só esse ano. A gente já tava planejando casamento antes da história de transferência sair, então o custo de mudar tudo ia ser muito alto. Aí deixamos como estava planejado mesmo com a mudança. Mas isso gerou algumas coisas divertidas, como prova de bem casado menos de 24 horas antes de mudar e assinatura de contrato no aeroporto de Guarulhos, enquanto esperava o vôo pros EUA (sério). A vantagem foi poder botar a culpa da mudança em tudo o que eu já não queria fazer para a festa. A desvantagem foi pagar o preço de um celta 2012 em passagens de Albuquerque para BH....

Game Over

Aí, como Murphy é meu brother, na volta para os EUA resolveu cair o mundo em Guarulhos e meu vôo foi cancelado. Óbvio. Eu tinha comprado as passagens para chegar em Albuquerque na manhã do dia 18, para poder pegar meu cachorro e descansar antes de voltar a trabalhar no dia 19. Mas com esse atraso, eu ia chegar no aeroporto 40 minutos antes de uma reunião. Eu pisei em casa entrando na reunião (era por telefone), sem ter dormido direito. Fortes emoções. Mas deu certo no final.

Ah, e lembra que eu tinha falado que estava tudo dentro do cronograma até dezembro? Pois é. Foi só eu viajar que começou a atrasar um monte de coisa.... Murphy me ama.

É isso. Foi um ano de mudanças e adaptações, mas não posso reclamar. Quem sabe ano que vem eu consigo mais tempo (e paciência) para postar aqui. Mas não prometo nada.