Um tempo atrás um casal de amigos decidiu que ia casar em Las Vegas, em uma missa celebrada pelo Elvis. E para ir acompanhar este grande evento, e eu precisaria tirar o visto americano.
Eu fui para os EUA no longínquo ano de 1993 e, naquela época, o visto era uma coisa simples de tirar (talvez nem tanto, mas era mais simples que agora). E o meu visto, assim como o passaporte que ele estava, venceram há um bom tempo (passaporte eu tirei 2 depois daquele).
Agora, tirar o visto não é algo tão simples assim. Primeiro você preenche um formulário gigante, que gasta uns 45 minutos para ser preenchido. Eu tinha visto esta estimativa no site do consulado e achei absurda. Depois eu vi que é mais ou menos isso mesmo.
Uma das perguntas, óbvio, é se você já teve visto anterior e o número dele. Lógico que eu não tinha mais o passaporte. Naquela época, ele ficava com a minha mãe e assim que ele venceu e eu renovei, ela jogou fora. Mas tinha a opção "eu não sei". Marquei, mas confesso que fiquei com receio.
Uma outra pergunta (acho que a seguinte) era se você já tinha estado nos EUA e qual a data. Eu não lembro quando fui pra Europa (tem 2 meses), imagina se vou lembrar da data de uma viagem de 93. Mas tinha lá um comentário que se você não lembrava, para colocar a tá mais próxima. E eu lembrava que foi entre junho e julho de 93.
Depois de preencher mais um monte de coisa (incluindo aí a pergunta "você é terrorista?"), revisei o bagulho e, realmente com receio de dar merda não ter o passaporte antigo, enviei (pagando uma "pequena" taxa de 160 dólares).
Triste pelo rombo, comecei a olhar os próximos passos. Eu teria que tirar foto e pegar as digitais em um dia (poderia ser em BH) e depois passar pelo processo de entrevista, que não poderia ser em BH. Ou seja, além da taxa bacana, ainda teria que pagar passagem e hospedagem em alguma outra cidade. Só que o Rio é uma das opções, então eu poderia comprar só passagem. Marquei as bagaças, comprei as passagens e viajei pra Bolívia.
Voltando de viagem, no dia seguinte fui tirar a foto e as digitais. Lugar bacana, sem fila, mas só um cara atendendo (apesar de ter umas 10 cabines). O processo é rápido, mas a espera foi mais ou menos grande, porque eu havia chegado antes da hora. No todo, levou meia hora.
Dois dias depois, já no rio, era dia de passar pela entrevista. Eu levei documentação pra comprovar tudo: renda, emprego, resistência, saúde... Até declaração de imposto de renda tava na pasta. E como já sabia que não podia entrar com celular, deixei em casa.
Também cheguei antes da hora, então levei uns 20 minutos para entrar no consulado. O bizarro é que já tinha gente lá para entrevista duas horas depois (eles recomendam chegar com 15 minutos de antecedência). Bom, entrei.
O processo é o meio burocrático. Você entra e fica numa fila (sentado). Espera. Aí te chamam para você entrar em outra fila (em pé), mas é rápido. A mulher só escaneia seu passaporte e fala se você pode ir para a entrevista ou se tem que passar por uma outra triagem. Nos dois casos, você vai para outra fila (sentado).
Essa segunda fila sentada foi razoavelmente rápida. Mas aí te chamam para outra fila (em pé) para a tal entrevista. Confesso que não sei o que acontece com quem vai pra triagem. Só sei que fica sem o passaporte por um tempo.
A tal fila da entrevista com demorada. Até chegar nela eu gastei uns 20 minutos. Fiquei nela mais uns 20. Quer dizer, é uma fila para pegar outra fila. A primeira fila é geral para todas as cabines de entrevista, depois você vai para uma fila específica da cabine. E aí é loteria.
Essa segunda fila pode ser rápida, se as pessoas na sua frente não forem muito questionadas, ou pode ser demorada pra caramba, se o nível de questionamentos for alto. A minha, óbvio, foi bem demorada. E olha que só tinha 2 famílias na minha frente.
Eu acho que esse treco é de propósito. Vai criando uma tensão sinistra. Querendo ou não, você escuta o que o entrevistador fala com as pessoas na sua frente (e até em outras cabines). Na primeira das filas, eu ouvi um dos atendentes falando com a pessoa (em inglês) que com as informações que ela tinha passado infelizmente ele não poderia dar o visto. E o cara falava alta, sem motivo aparente.
A primeira família na minha frente levou um tempo bom, e eu não consegui ouvir o que o cara estava perguntando. Mas eu ouvi o cara da cabine do lado. Ele sabatinou o sujeito que estava tentando o visto sem dó, perguntou até a cor da cueca que o cara ia usar quando fosse viajar.
A segunda família na minha frente eu já consegui ouvir. Chamaram os 3, escanearam os passaportes e foram uns bons 5 minutos de silêncio, com o agente de imigração lendo alguma coisa no computador. Deve vir a história toda do pessoal na tela. Aí ele fez umas perguntas, a família enrolou pra responder, ele tentou novamente, mais uma enrolada, aí falou "não vai rolar o visto".
"Fudeu", pensei. Eu era o próximo. Fui pra cabine, antes de o cara me chamar. Vi que ele não gostou, porque ainda estava escrevendo alguma coisa da família anterior. Levou uns bons 2 minutos escrevendo, e eu lá na frente dele, esperando com um sorriso no rosto.
Quando ele acabou, pegou meu passaporte, escaneou, leu alguma coisa por 15 segundos no computador e perguntou:
- Você conhece os estados unidos?
- Sim, já fui em Orlando e Miami.
- Ok. Seu visto foi aprovado. Você vai receber seu passaporte em breve com ele. Bom dia.
Sério. Foram uns 45 minutos dentro do consulado para 30 segundos de entrevista.
Saí de lá felizão por ter um bom emprego em uma empresa multinacional.