10 de jul. de 2010

Os problemas da minha empresa

Eu tenho plena consciência que toda empresa tem problemas. Não existe empresa ideal, nem mesmo a sua, se você é empresário. Mas umas empresas tem mais e outras tem menos problemas. E quase sempre você só descobre os problemas depois que já está há algum tempo na empresa.

Na minha empresa atual, não foi diferente. Quando eu fiz a entrevista para contratação, pintaram a empresa de ouro:

- Dois a três aumentos por ano, por meritocracia;
- Crescimento rápido;
- Plano de carreira em Y (se gostar da área técnica vai para um lado. Se gostar do gerencial vai pro outro);
- Se viajar, não divide quarto e volta toda semana para casa em viagens de até 1000 km;
- Paga metade de cursos de MBA, inglês e espanhol, além de certificações que você conseguir;
- Clima bom para trabalhar, além de poder falar diretamente com o presidente.

Entre outras coisas. Eu, óbvio, não acreditei em tudo, mas algumas das promessas eram boas e simples de serem cumpridas. Mesmo assim liguei para 2 colegas de faculdade e ex-consultores para averiguar os fatos. Eles confirmaram TODOS os itens, então topei ir trabalhar lá, porque se cumprisse metade das coisas eu já estava feliz.

Logo que entrei vi que algumas coisas eram verdade: o clima é muito bom de trabalhar, tinha inglês na empresa e todo mundo que estava fazendo MBA tinha ajuda de custos. Existia realmente a carreira em Y e eu via o pessoal batendo papo com o gerente do escritório como se fosse amigão de boteco.

Aí veio a crise um mês depois de eu ter entrado. "Fudeu", pensei. E o presidente mandando emails falando que não ia demitir ninguém, que estávamos com 2 projetos gigantes que garantiam a empresa pelo ano inteiro, só não dava pra ficar fazendo "gracinhas". Eu entendi completamente e achei do caralho. Mas aí começaram as minhas lutas....

A Promoção

Veio 2009 e me jogaram num projeto que já estava escrito que ia dar prejuízo. Eu seria o braço direito do gerente, fazendo toda a gestão do projeto. Trabalhei bem e conquistei a confiança do gerente em uns 2 meses. E ele começou a fazer propaganda do meu trabalho. "Opa, vou ser promovido rápido", pensei. Passaram 3 meses e nem aumento eu tive. Fui chorar com meu chefe e ele disse que a empresa mãe estava sofrendo com a crise e segurando promoções e aumentos (para não falar mandando embora). Mas aí uma leva duns 8 foi promovida. Não entendi e questionei o meu chefe. A resposta: "eles estavam na fila há mais tempo". OK.

Aí em setembro um projeto grande de BH parou. O cliente e a minha empresa vinham brigando há algum tempo e o cliente resolveu matar o projeto. Era muita gente desalocada de uma hora para outra (quase metade do escritório). Aumento? nem pensar. E, mais uma vez, entendi a situação. E mais uma vez, para minha surpresa, teve uma leva de promoções. Eu, logicamente não estava na lista. Mas tinha muita gente que não consegui entender o que estava fazendo lá. Era gente que virou lider de projetos que nem cronograma sabia fazer! Aí fiquei puto e questionei meu chefe mais uma vez. A resposta: "eles estão há mais tempo na empresa". Ué, e a tal meritocracia? Aí ele falou que ia ver o que ia fazer e pediu a minha promoção. Até agora nada...

Mais uns 3 meses e veio mais um baque: parou o projeto mina de ouro da empresa. Aquele projeto que "putaquepariu dá lucro pra caralho e mantém a empresa". 350 pessoas desalocadas de uma hora pra outra. "Agora vai ter demissão", pensei. Nada. Nem uma alma foi para o olho da rua. Mas para isso, a diretoria ia cortar TODOS os investimentos. Todos. Não ia ter grana nem para trocar o computador da galera. Mais uma vez, entendi a situação. Mas para a minha surpresa, um monte de gente foi promovido, até a secretária! E eu não, lógico. Aí eu fiquei puto. A resposta do meu gerente: primeiro sobem os juniores e, se sobrar um troquinho, promovem os plenos.

Isso não faz o MENOR sentido. Porra, um cara como eu, que já está com uma pica gigante pra resolver há um ano e meio, com uma responsabilidade gigante, resolvendo um problema atrás do outro, tomando porrada de cliente e ainda dando resultado pra empresa não é promovido. Mas a secretária que faz uma merda atrás da outra consegue a promoção. CADÊ A PORRA DA MERITOCRACIA????

A Universidade Corporativa

A Universidade corporativa é, na verdade, quem cuida da grana usada para treinamentos, cursos e tudo que envolva estudo, inclusive as ajudas de custo para quem faz MBA, inglês, espanho e tira certificações. Não sei porque tem esse nome, dado que eles não dão aula de porra nenhuma, mas tudo bem. É marketing.

Também no começo de 2009 resolvi fazer um MBA. Como tinha gente que tinha ACABADO de conseguir a "bolsa escola" na UC, pedi também. Falaram que não rolava, porque estava sem verba. Tipo aquele "ô, acabamos de dar a última bolsa de estudo! Tenta novamente mais tarde". Fiquei puto, mas entendi, porque o pessoal realmente deve ter um orçamento para o ano e devia estar comprometido. TRÊS MESES DEPOIS os caras soltam uma mega parceria com a FGV em que pagariam 80% do MBA. Porra, porque que não passou a me pagar ao invés de pagar essa pós para mais gente? Mais uma vez, meu gerente naõ teve resposta (esse ele nem tentou me enrolar).

Passou um ano e tirei a certificação PMP. Como todos os outros dez caras de BH que tiraram a certificação no ano passado, solicitei o reembolso. Falaram que a diretoria tinha mandado cortar todos os investimentos e que o principal corte foi na UC. E que por conta disso não iam conseguir me reembolsar agora, mas que eu tentasse no próximo ano fiscal, lá pra Novembro.

NA MESMA SEMANA veio um email da parte de eventos chamando o pessoal para o circuito adidas de corrida de rua e disseram que iam pagar a inscrição, que teria barraquinha com massagem, água, açaí e o diabo. PUTAQUEPARIU! Tem dinheiro para fazer inscrição de corrida, mas não tem dinheiro para a UC? Que tipo de empresa corta a verba de capacitação do profissional como primeira opção de medida de economia de dinheiro? Tinha que cortar era essas merdinhas de corrida!

Falei com o meu chefe mais uma vez e ele não teve resposta, mais uma vez. Mas aí lembrei que corrida não é investimento e estudo sim. Só pode ser essa a desculpa.

A carreira em Y

Mais em cima falei das pessoas que eram promovidas para lider de projetos sem fazer um cronograma, lembra? Pois é, isso é exatamente o tal efeito Ralo que a gente ouve tanto falar nos cursos de gestão de projetos: "você é bom para caralho tecnicamente, então vai ser bom pra caralho gerenciando projetos". E, muitas vezes, isso é mentira.

Primeiro que pra gerencia projetos você tem que gostar. E nem todo mundo gosta, está lá só por causa do status. Depois que para GERENCIAR um projeto você tem que SABER. E quase ninguém estuda. Vai lá e começa a TOCAR projetos. Eu já vi gente que fez um cronograma meia boca e colocou todo mundo da equipe em todas as tarefas, porque "não sabia quem estaria disponível para fazer a tarefa". Hã? Alô, planejamento?

Não fosse esse um problema sério, ainda tem o problema de que o outro lado do Y, o técnico, fica desfalcado. Aí o cara que entende tudo de instrumentação vira gerente e não tem tempo de tirar dúvidas e ajudar o pessoal. E aí a gente tem que CONTRATAR um consultor em instrumentação, aumentando o custo da empresa.

E quando questionei meu chefe a resposta foi "é, tá errado. Mas é a cultura da empresa".

As viagens

Quem lê o blog ha mais tempo já viu o quanto eu sofri com viagens na minha empresa. Já inventaram de tudo e já fizeram merdas gigantescas. Quase perdi o vôo umas 3 vezes por conta disso. Mas pelo menos eu ficava sozinho no quarto e voltava toda semana.

Mas quem lê o blog há mais tempo também lembra que já tentaram me fazer mudar para o Rio. Não era bem mudar, mas eu seria colocado em um apartamento da empresa, dividindo quarto, e me dariam X reais por mês, o suficiente para voltar duas vezes por mês pra BH. Veja a pegadinha: por um lado, se você fizesse boas compras e pegasse promoções, poderia voltar toda semana. Mas nas férias, provavelmente voltaria uma vez por mês, porque passagem para o Rio fica um absurdo.

Essa foi a única vez que meu gerente conseguiu me salvar. Mas só porque eu bati o pé e falei que não ia nem fudendo, porque não tinha sido o que haviam prometido na minha entrevista de contratação. Não estava nem um pouco preocupado se ia queimar o meu filme. "Se for para passar 15 dias fora de casa eu volto para a consultoria, que paga melhor", falei com todas as letras.

E só aceitei ficar esse tempo todo no Rio porque me garantiram que era retorno semanal e hospedagem em hotel.

Um peso, duas medidas

Aliás, essa história do Rio me lembrou do meu queridíssimo gerente FDP. Aquele filhodaputa que me fez de palhaço e foi me deixando no Rio, mesmo sabendo que eu TERIA que voltar para BH, porque tinha aulas da pós. E que ignorou isso completamente e eu que me virasse para ficar lá.

Pois esse mesmo filha da puta fez coisas que eu não consegui entender até hoje: estavamos precisando de 2 arquivistas para o projeto e estava difícil conseguir gente (o que eu não consegui entender, dado que as 350 pessoas desalocadas no projeto lá em cima ainda estavam quebrando galhos em outros projetos). Aí, quando finalmente conseguiram, uma delas falou que não trabalhava com a outra. E ele falou um "OK" e ficaram mais 2 semanas procurando alguém para o lugar dela.

COMO ASSIM? Porra, é trabalho. SEMPRE vai ter alguém na sua equipe que não gosta, mas é a vida. Engole o choro e vai dar resultado pra empresa. Empresa essa que tá fazendo de tudo para te manter empregado.

Mas esse bloco, de um peso e duas medidas, vale para todos os itens acima, não só para este exemplo. Mas esse exemplo, para mim, foi o mais bizarro de todos. O cara que não pode ficar se fode, enquanto as que não querem trabalhar juntas podem ser atendidas.

Os pesos mortos

Até agora você, caro leitor, deve ter ficado impressionado que, mesmo com essa merda toda acontecendo na empresa, não tenha rodado uma alma da empresa, certo? Deve estar me xingando por trabalhar numa empresa que não mandou ninguém embora mesmo estando completamente fudida, né?

Pois bem, deixe eu falar um pouco sobre isso... A cultura da empresa, criada pelos fundadores da empresa (aqueles diretores que sairam da empresa e criaram uma empresa nova) era essa: você deve dar estabilidade para o operacional trabalhar tranquilo. Não se demite ninguém, porque é uma família. Genial. Mas genial quando você tem uma equipe boa.

Hoje, o escritório do Rio é o que emprega mais gente. São umas 800, 850, mais ou menos. E muito mais da metade dessas pessoas foi contratada em menos de 6 meses. Quando uma empresa cresce tanto tão rápido, vai entrar de tudo: desde o estagiário que vai sair da empresa para ir pra NASA até o cara que não sabe nem ligar o computador, mesmo depois de 5 anos de faculdade. Também vai entrar o cara que é dedicado e o cara que sabe que, como a empresa não manda embora, pode fingir que trabalha e fica na internet o dai inteiro.

E o escritório do Rio está CHEIO de gente assim: ruim de serviço, incompetente e que faz corpo mole. Eu já contei histórias desse povo aqui. E quem já trabalhou por mais tempo no rio fala: para cada cara dedicado tem DOIS morcegos. E o cara dedicado faz o trabalho dele E o dos morcegos. Ou seja, dá para fazer a limpa e ficar só com os caras bons. Eles que trabalham mesmo.

Não quer mandar todo mundo embora de uma vez, para não causar pânico? OK, tira uma pessoa de cada andar por mês. São 15 andares, em uns 6 meses você já tirou as maçãs mais podres. Aí você ganha condições de remunerar melhor os caras bons, promover quem merece, dar mais benefícios e manter a equipe que ficou mais satisfeita.

Se você não faz isso, continua com problemas sérios e não consegue resolver. Em BH também tem gente ruim de serviço. Gente que eu já reclamei no blog há mais de um ano. E que já me falaram que continua ruim de serviço, mesmo depois de UM ANO dando treinamentos, tentando recuperar a pessoa, moldar e que não deu resultado.

Na boa, pra mim tem que ser assim: a pessoa é ruim. Ela está fazendo o que gosta? Se sim, treina. Se não, procure muda-la para uma área que ela goste. Deu resultado? Se sim, maravilha. Se não, treina. Já treinou a pessoa e continua sem dar resultado, conversa com ela. Se não resolveu, rua. Ficar com pesos mortos afundando o resultado da empresa é que não dá.

Diante disso tudo, sentei à mesa com o meu chefe e abri o bico. Contei todas essas historinhas ai em cima (e outras que não lembro agora). Ele concordou comigo em quase todas elas, mas que não podia fazer nada. O que ele podia fazer já tinha feito (pedir a promoção). Aí mandei a real: eu segurei a onda no começo do ano por causa da prova de PMP. Para bom entendedor meia palavra basta e eu vi que ele ficou preocupado.

2 Palpites:

Anônimo disse...

Mas é aí? Vai bancar a "ameaça" se não tiver mudanças?
Abraços,
André.

Esparroman disse...

Se nada mudar mês que vem começo a olhar outras oportunidades.

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