Estava lá eu, sentado na minha mesa, recém chegado de Manaus, quando um engenheiro junior que trabalhou comigo no ano passado me manda um recado no Skype:
- Opa, blz? Tava querendo trocar uma idéia com você, pode ser? Queria umas dicas para virar pleno.
- Pode ser mais pro fim do dia? Tô cheio de coisas pra entregar hoje. - respondo
- Blz. 5:30?
- OK.
No ano passado o menino tinha acabado de formar e, como muito recém-formado, fez um monte de caquinhas. Esse ano, não tinha trabalhado com ele, então fui buscar informações com quem tinha trabalhado com ele. Tanto o líder quanto o gerente dele falaram MUITO mal. E falaram que achavam estranho ele ter pedido pra conversar sobre promoção, porque eles haviam feito uma reunião de feedback com ele e tinham falado todos os pontos de melhoria. Perguntei quais eram e, realmente, não eram poucos.
De posse dessas informações fui conversar com o meu chefe, para perguntar como falar para o sujeito que ele não estava pronto ainda. Ele me ensinou uns eufemismos e falou algumas coisas que ele julgava que o cara teria que ter. Anotei mentalmente o que ele disse, juntei com o que os outros dois haviam falado e somei o que eu esperava de um engenheiro pleno e fiquei pronto para ajudar o cara.
Quando chegou o horário da reunião, sentei na mesa e falei com ele "e aí, o que te aflinge?". O cara falou pouco, mas resumindo queria trabalhar mais na área dele para ter chance de crescer, porque já tinha 4 anos de empresa e ficou pulando de projeto em projeto, cada um em uma área diferente. E que queria umas dicas para ser promovido, porque, pô, ele já tinha 4 anos de empresa (e 2 de formado).
A situação era um pouco pior do que eu pensava: o cara ainda achou que por ter 4 anos de casa já merecia a promoção. Isso é herança da gestão antiga da empresa. Como eu já tive muito chefe babaca e outros geniais (assunto para outro post), sei como eu gostaria que me dessem notícia. Tracei a minha estratégia e comecei, num tom de voz bem calmo, para não assustar o menino:
- Cara, olha só, tempo de casa não é critério único e exclusivo de promoção. Ele é, no máximo, critério de "desempate". Eu sei que antigamente tinha essa política de virar pleno depois de 2 anos de formado, mas isso mudou, porque não é sustentável. O cara para virar pleno tem que ter conhecimento de um pleno e, mais importante, postura de um pleno.
Quando falei isso vi que os olhos dele começaram a juntar água. Pressenti o pior. Mas continuei.
- Eu sei que você está trabalhando em muitos projetos fora da sua área e que só nesse último que você conseguiu trabalhar nela. Você pode achar isso ruim, porque estará sempre começando a aprender alguma coisa e não vai dominar em nada. Mas não é bem assim. Olha fulano. O cara virou especialista (um cargo na minha empresa) e quase nunca repetiu projetos da mesma área. Só que o cara sempre afunda a cara nos estudos quando começa um projeto. Isso é uma coisa que eu acho que você deve fazer e é uma coisa que eu julgo importante num pleno.
O olho do cara encheu mais um pouco de água. Continuei.
- Outra coisa importante é que você tem que ter em mente que aqui em BH não tem projetos da sua área quase nunca, então se você quer realmente trabalhar com isso, recomendo que vá para o Rio, São Paulo ou Salvador, onde tem sempre projeto. Ou então, vou até falar baixo, procura uma outra empresa em BH que tenha projetos da sua área. O que eu não recomendo é que você trabalhe em algo que não goste. Se você não está gostando do seu projeto atual, cara, pensa em alguma coisa que você já fez aqui e que você gostou, seja da sua área ou não, e conversa com o seu gerente, explicando que você quer trabalhar com tal assunto. E aí, enfia a cara nos livros.
O olho do cara ficou vermelho. Eu estava vendo a hora que ele ia explodir. Mas continuei.
- Uma outra coisa que eu acho importante é postura. Não estou falando em vir engomadinho trabalhar. É postura perante a equipe. Tomar as rédeas do projeto, ficar sabendo de tudo o que está acontecendo, entregar sempre as coisas com um olho no futuro. Por exemplo: você está fazendo plantas de alocação. Já faz isso pensando na melhor rota para passar o cabeamento e quando entregar a alocação, já conversa com seu superior sobre a rota que você acha melhor, os problemas que você está vendo ou os riscos que você está prevendo. Surpreender o seu lider e mostrar que você está preocupado com o projeto. Viu uma coisa que está errada agora e que só vai explodir daqui 3, 4 anos? Avisa o seu superior!
- É, eu vi uma coisa parecida com isso essa semana. A gente tá fazendo um negócio porque tem que entregar, mas depois vai dar um retrabalho gigante.
- Você já falou isso pro seu lider?
- Não.
- Tá vendo? tem que falar. É isso que ele está esperando. Em um projeto desse tamanho, não tem como ele prever isso tudo. Ele precisa da ajuda da equipe. se você avisar e ele resolver não fazer nada, pelo menos você fez a sua parte e mostrou maturidade. Essa é a palavra chave. MATURIDADE. Um cara pleno tem que ser maduro. Tem que saber que quem está abaixo dele o vê como um ponto de apoio. Isso é outra coisa que você deve fazer: ensinar quem está abaixo de você, ou até mesmo no mesmo nível. Mas para isso tem que estudar.
E o olho do cara estava quase saltando, de tanta água acumulada. Mas fui firme e continuei.
- Você tem que conquistar a confiança da sua equipe. Principalmente do pleno que está trabalhando com você. Esse cara VAI conversar com o sênior, com o Lider e com o Gerente. E ganhando a confiança desses três, cara, o céu é o limite. O que eu espero da minha equipe é que eu possa pegar um documento feito por alguém e emitir sem nem revisar. Lógico que não vou fazer isso, porque erro sempre acontece, mas é o que eu espero. Esse tipo de confiança que você deve conquistar dos seus superiores. Ganhando esta confiança técnica e mostrando que você está pensando sempre no sucesso do projeto inteiro e não só de fazer a sua parte, a promoção é natural.
O cara já estava quase chorando e eu vi que ele não se aguentaria. Pensando nisso, dei uma chance para ele falar e chorar a vontade. "Vai lá, cara. Abre seu coração.", falei, dando um tapinha no ombro dele.
O cara desabou a chorar. Mas chorar de soluçar. E entre os soluços ele balbuciava um ou outra palavra, falando que era muito tímido, muito fechado e que não era o estilo dele ser dos mais "conversativos".
Aí acalmei o cara. Falei que eu também era tímido e absurdamente fechado (se ele soubesse como odeio gente...), mas que isso não impediu de crescer. Porque não é só ficar batendo papo com o chefe, puxando saco. A questão era de postura. ele podia ficar queitinho no canto dele, trabalhando, mas sempre surpreendendo os superiores e falando riscos e problemas que ele está vendo.
Conversei com ele mais um tempo bom e mostrei para ele que não é impossível, basta ele querer. E que se ele precisasse conversar, eu estaria disponível. Mas que a primeira coisa que ele deveria fazer é achar alguma coisa que ele gostava de fazer e conversar com o gerente dele. Isso ele teria que fazer sozinho. O resto, eu o ajudaria numa boa.
Fui para a minha mesa com a sensação de dever cumprido e ele ficou no banheiro da sala de reunião, limpando o rosto, que estava até inchado de tanto que ele chorou.
4 Palpites:
bom ver q vc tá sabendo fazer como ajudar outros, e o melhor, deixando claro o q é necessário pra se conseguir uma promoção...
qto ao prédio ao lado do Plaza Anchieta, parece continuar de pé, pelo menos é o q indica miha visita ao site do "O Tempo", nada mais veio abaixo...
[ ]s
Eh, ajudar o cara me pareceu a melhor coisa a fazer.
abracos
não vou estar em BH no ano novo, então vai adiantado: um 2011 de mta paz, prosperidade, saúde e DINHEIRO... e q seus tamagotchis sirvam pra ajudar e não só pra estressar...
[ ]s
Opa, um ótimo 2011 pra você também. Acho que a parte da saúde vai pegar mais que a do dinheiro ano que vem, hehe.
[]'s
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