Tudo começou há mais ou menos um mês atrás. Estava eu em semana de emissão, maluco, arrancando os cabelos, xingando a mulher de civil, quando recebo um email. O título era “ENC: OS 09257-10007”. O texto do email era “Para você.”, com 3 arquivos em anexo: um pdf, um xls e um mpp.
Meio sem saber o que fazer naquela correria de semana de emissão, lasquei um “semana que vem” nele e esqueci. Mas foi por pouco tempo: mais tarde naquele dia fui procurado pelo gerente do escritório, para saber em que pé estava o planejamento. Nem ABERTO os arquivos eu tinha, imagina se tinha planejado alguma coisa....
Parei o que eu estava fazendo e fui olhar a porcaria dos documentos. O PDF era um memorial descritivo (MD), escaneado, cheio de comentários feitos a mão, com o suposto escopo do projeto. O Excel era uma lista de documentos e o Project um cronograma feito às pressas para ver o custo do projeto.
Olhei aquilo e, sem fazer muito esforço, vi que o projeto dava uns 100% de prejuízo. Aí comecei a esmiuçar o cronograma e vi que estava faltando um monte de coisa, como custo de gerenciamento, alocação de pessoas no período entre o projeto básico e o projeto detalhado e por aí vai. Para piorar, o cronograma ainda estava com os predecessores todos cagados e a entrega final do book de engenharia estava acontecendo ANTES de todos os documentos estarem prontos. Uma maravilha.
Aí fui lá e arrumei o cronograma, colocando tudo certinho. O prejuízo DOBROU. Mas foda-se, é um “projeto estratégico”. Meu chefe só pediu para eu fazer uma planilha que explicasse a razão do aumento dos custos, o que eu fiz rapidinho. Ele viu, gostou e mandou tocar o barco.
Aí fui lá conversar com o cara responsável pelas alocações para perguntar alguma coisa sobre o projeto de Manaus e fiquei sabendo que um dos caras que trabalharia no projeto tinha sido emprestado para outro projeto por “umas duas semanas”. “Umas duas semanas” na minha empresa significa “para sempre”, mas ignorei esta lição aprendida. De qualquer maneira fiquei muito puto por 2 motivos: tiraram o cara do projeto sem me avisar e teria que refazer o cronograma TODO. Mas era dia de emissão, então não preocupei. E na semana seguinte estaria em Manaus, logo só poderia trabalhar nisso na semana seguinte.
Antes de ir para a selva, deixei toda a documentação que eu tinha com o resto da equipe, para que estudassem, e o cronograma, para já começarem o projeto. A idéia era ir fazendo os documentos com a ajuda do cara que vendeu o projeto, que tinha todas as informações técnicas e de escopo. Eu aproveitaria os dias em Manaus para descobrir o que era o projeto.
Aí fui para Manaus e li tudo o que eu tinha. Cheguei a conclusão que eu não tinha NADA. Não tinha nada definindo escopo. O tal MD falava de 200 mil coisas e, dentro dele, teria que pinçar o que era para eu fazer e o que não era. Maravilha...
Voltei de Manaus depois de muito sacrifício e quando chego ao escritório vejo a equipe perdida. Todo mundo com cara de “sei que tenho que fazer alguma coisa, mas não sei o que”. Vou conversar com o meu gerente e descubro que ele está na mesma situação que eu e que, para piorar, o tal cara que tinha sido emprestado foi realmente retirado do projeto, mas que não tinha ninguém para colocar no lugar.
Depois de uns 3 dias descobriram um consultor sênior para entrar no lugar do cara que saiu. Nessa brincadeira refiz todo o cronograma e o custo duplicou, mas tudo bem. Foi o diretor que mandou usar o cara. Detalhe: o cara é de São Paulo. E aí, quando ele entrou, passei toda a documentação que tinha pra ele. Dois dias depois, ele me liga perguntado a mesma coisa que o resto da equipe: “que que é pra fazer nesse projeto?”.
Resolvi então fazer uma conferência com todos os envolvidos: eu, um cara de tubulação e um de processo em BH, o consultor de SP e o cara que vendeu e o gerente dele em Vitória. Uma beleza. Em meia hora de reunião não conseguimos descobrir qual era a porra do escopo. Tudo o que o pessoal de vitória falava era: “tem que fazer o que está no MD e na LD”. Até que o seguinte diálogo ocorreu:
- Tá, eu tenho que fazer os documentos que estão na LD. Tem um aqui: “Memorial descritivo do projeto básico”. Eu sei que tenho que fazer, mas não tenho a menor idéia DO QUE eu tenho que colocar dentro do documento. – disse o consultor.
- Tem que colocar o que está no MD. – disse o gerente de vitória.
- E o que é que está no MD? Tem 200 coisas escritas lá, é tudo escopo nosso?
- Não.
- Então COMO você quer que eu descubra o que eu tenho que colocar dentro dele?
- É, realmente o escopo não está bem definido, mas está uns 90% fechado.
- Cara, marca uma reunião com o cliente. Vamos fechar este escopo.
E aí surgiu a viagem pegadinha, para o dia seguinte. Eu sabia que tinha que ir para Vitória, mas não tinha passagem nem hospedagem. Cheguei em casa, fiz a mala, coloquei um conjunto de roupas a mais (camisa, cueca e meia) e no dia seguinte fui para o escritório arrastando a mala. A minha sorte é tão grande, mas tão grande que na mesma semana estava tendo um congresso de qualquer coisa na cidade e NENHUM hotel tinha vaga. Acharam um apart e marcaram sem nem saber se era bom. E como não era conveniado, adivinha quem teria que pagar a conta....
Passagens em mãos, hotel marcado, eu quase saindo para o aeroporto quando meu telefone toca. Era o cara de vitória falando que o cliente pediu pra adiar a reunião para o dia seguinte ao que íamos. Maravilha. Já liguei pra meio mundo e pedi pra alterar as passagens da volta. Na ida, não tinha mais jeito. Mas até que seria uma boa passar o dia em Vix e fazer uma reunião interna para entender o escopo.
Catei a mala, fui para o aeroporto (pegando um engarrafamento gigante) e consegui chegar a tempo. Fui para vitória, cheguei no horário e pedi um taxi. Tô lá esperando junto com mais um monte de gente. Aí para um carro preto, placa normal e grita meu nome. Uma das pessoas que estava no mesmo lugar que eu entra no carro e vai embora. Nem preocupei.
Meia hora passada e nada de taxi. Até então estava achando normal, porque já tinham me falado que taxi em Vix é um lixo, mas como só tinha eu e mais um cara esperando, resolvi ligar. Sabe aquele carro preto? Era o meu. O cara tinha o mesmo nome que eu. “Manda outro então, porra!”.
Mais meia hora e chega outro carro. Grita meu nome. E eu o outro cara vamos em direção ao carro. O cara TAMBÉM tinha o meu nome. E TAMBÉM era convênio do Rio. Uns 5 minutos depois o cara me manda entrar. Ele se perdeu para chegar no hotel e nisso já era prá lá de 10 da noite, logo o restaurante do hotel estava fechado. SORTE que eu tinha dinheiro para pedir alguma coisa delivery, senão ia morrer de fome....
No dia seguinte encontrei com o consultor de SP e fomos para o escritório. Chegamos lá, fizemos uma reunião de 7 horas e vimos que o escopo era realmente muito simples. Agora a reunião do dia seguinte, com o cliente, seria só para tirar dúvidas.
No dia seguinte o cara passou no hotel 5:30 da matina e pegamos estrada rumo ao norte capixaba. Três horas e pouco depois chegamos à cidade. Entramos para reunião e 6 horas depois o escopo do projeto aumentou 10 VEZES e CONTINUOU ABERTO. Pra piorar, ainda teremos que fazer levantamento de campo, porque os documentos que nos passaram estão completamente desatualizados.
Pegamos o carro e 4 horas depois estava de volta ao hotel. Dormi e no dia seguinte fui para
Aí essa semana resolvemos jogar o projeto para SP. A situação atual do projeto é essa: enquanto definem se vai pra SP ou não, eu finjo que trabalho (porque não tem o que eu fazer MESMO, dado que está todo mundo em SP e o consultor tá se virando por lá) e a gente vai pedindo informações para o cara de vitória, enquanto não conseguimos fazer o tal levantamento de campo. Vamos ver se sai alguma coisa nos próximos dias...
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