Desde que Joselita entrou no projeto reparei que ela fala muito ao telefone. No primeiro dia, foi pra bater papo com as amigas e contar que tinha arrumado emprego. Nos dias seguintes, foi pedindo "exemplos" de documentos que vamos ter que elaborar no projeto. Tipo a gente faz na faculdade quando não sabe fazer alguma coisa, sabe? E desde então estou cabreiro com ela.
[interlúdio] Eu tenho dessas coisas: às vezes, só de olhar para uma pessoa eu já não vou com a cara dela. Posso nunca ter conversado com ela, mas não vou com a cara dela. Algumas vezes, depois de conversar com a pessoa vejo que não tem nada a ver e que era tudo loucura minha. Mas MUITAS vezes eu estou certo. O fato é que quando eu não vou com a cara de alguém presto muito mais atenção na pessoa para ver se eu estava certo ou errado. [/interlúdio]
Estava eu trabalhando, sentado na minha mesa, quando um cara de um outro projeto levantou da sua mesa e foi até a Joselita. Eu, liguei o radar para tentar pescar alguma coisa da conversa:
- Bom, como você é engenheira civil deve saber mais que eu de AutoCAD. Tira uma dúvida...
- Na verdade nunca mexi com AutoCAD. Não posso te ajudar.
- Ah, tá, brigado.
Naquele exato instante perguntei ao meu gerente (que é de São Paulo):
- Onde que a Joselita formou?
- Ah, foi numa faculdade aqui de Minas, deixa eu ver no sistema de RH.... Aqui: Faculdade de engenharia Kennedy. Mas fez pós na UFMG e MBA (não lembro onde). Por que?
- Achei estranho uma Engenheira Civil que não conhece AutoCAD.
- Ah, é que ela sempre trabalhou cuidando de obra.
Para quem não sabe, a Kennedy é uma das faculdades mais picaretas e desprestigiadas aqui de BH. Apesar de ter num sei quantos anos de existência (tentei olhar, mas o site da faculdade tá fora do ar), ninguém a leva muito a sério (desculpe se algum leitor formou lá. Mas é a mais pura verdade). Tem muita empresa de Civil que quando recebe um currículo de lá já joga direto no lixo.
Para não dizer que estou escrevendo bobagem, vamos trabalhar com fatos e dados. BH tem, hoje, 6 faculdades que têm o curso de engenharia civil (que eu saiba). Só na UFMG (a mais conceituada) entram, por ano, 200 estudantes. Acho que no total devem ter umas 600 a 700 vagas de Engenharia Civil, por ano, em BH. A Kennedy é, sem dúvida, a última escolha das pessoas.
Ou seja, estamos falando, teoricamente, dos estudantes menos preparados. O que não quer dizer que todo engenheiro formado lá seja ruim. Pode ter gente boa que formou lá, mas acho difícil, dado que a tal menina em 5 anos de curso nunca trabalhou com AutoCAD.
"Mas por que esse alarde todo?", você me pergunta. Simples: no escritório de BH da minha empresa ela é a ÚNICA Engenheira Civil. E, por conta disso, deveria ser alguém MUITO bom de serviço, com conhecimento na área que vai trabalhar (PROJETO de engenharia). O que, pelo jeito, ela não tem.
"Então porque contrataram ela?", você retruca. Simples: por causa dessa lei. Sim, ela tem deficiência física. E antes que comecem a me apedrejar: não estou falando que deficiente físico não é bom de serviço, longe disso. Um grande amigo meu tem deficiência física (o Meleca) e é um dos caras mais inteligentes e capaz que eu conheço.
Só que, infelizmente, não há mão de obra qualificada suficiente para suprir todas as vagas abertas para deficiente físico e acabam tendo que contratar qualquer um que tenha alguma deficiência, senão a multa come em cima da empresa. Nas várias empresas que já passei, seja como contratado, seja como consultor, NUNCA vi algum deficiente fazendo serviços que não fossem de apoio (secretária, digitador, etc).
Eu sei que parte da culpa é nossa, que discrimina os deficientes e blábláblá, mas pô, no vestibular eles têm a mesmissíma chance de passar que qualquer outro (desde que estudem, claro). E não se vê muitos deficientes nas universidades. Não tenho dados para comentar, mas acredito que não tenha 5% de deficientes estudando na UFMG. E lá são mais de 30 mil alunos. Como é que querem, portanto, que as vagas para deficientes sejam preenchidas nas empresas?
Eu acho que os deficientes têm que receber tratamento igual ao dos não-deficientes. Realmente acho. E por pensar assim, acredito que deveriam ter o mesmo tratamento para conseguir as vagas de trabalho: sendo qualificados e capazes. Assim como cotas para negros nas universidades (nem vou começar a falar sobre o assunto), essa cota para deficientes na empresa é absurda.
Pra mim, se o cara é bom de serviço (seja ele branco, negro, amarelo, verde, cor de rosa, cego, surdo, mudo, sem pé, sem mão, etc) ele merece uma chance. Se não é, que se qualifique.
E antes que me apedrejam pela segunda vez: eu sei que a vida dessas pessoas é mais difícil (principalmente para os que não enxergam e que andam de cadeiras de rodas), mas se tem gente que consegue, não é impossível.
Aliás, se você conhece algum deficiente bom de serviço que saiba programar em java, me mande um email. Se o cara for bom mesmo, tem grandes chances de ser contratado.
2 Palpites:
Pô, cotas em cima de raças eu sou contra, mas para deficientes eu discordo de vc e sou a favor. Acho q são duas questões bem diferentes.
Abs,
André.
Não vejo tanta diferença assim. A lei brasileira diz que somos todos iguais, independente de cor, raça, credo, etc. Mas não brigar com ninguém, afinal isso é apenas a minha humilde opinião e respeito a sua. :)
E como eu disse, se o cara for qualificado, não vejo problema nenhum em contratá-lo. O problema é que a lei acaba "forçando" a contratar gente não qualificada.
Abraços!
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